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Se Eu Quiser, Choro

Imagem de Se Eu Quiser, Choro
Uma jovem bruxa que não consegue chorar, uma irmã transformada num sapo, um ex-namorado que perdeu literalmente a cabeça e uma pequena vila onde o sobrenatural parece fazer parte do quotidiano. Criada e realizada por Carolina Aguiar, Se Eu Quiser, Choro mistura fantasia, comédia, drama e romance numa história sobre família, culpa, amor e a dificuldade de controlar aquilo que sentimos.

Em Se Eu Quiser, Choro, a magia não serve para fugir da realidade. Pelo contrário, vive dentro dela.

As bruxas conduzem, estudam, fazem trabalhos de grupo, discutem relações e preocupam-se com aquilo que os outros pensam. Há feitiços, poções e maldições, mas os verdadeiros conflitos são profundamente humanos. É esse contraste que dá personalidade à série criada por Carolina Aguiar, que usa a fantasia para falar de amor, expectativas familiares, culpa e da dificuldade de aceitar que nem tudo pode estar sob o nosso controlo.

No centro da história está Odete, interpretada por Filipa Saavedra, uma jovem bruxa de 21 anos, impulsiva, apaixonada e convicta de que consegue resolver tudo sozinha. Adora a mãe e a irmã e grande parte das suas decisões nasce precisamente dessa vontade de as proteger, mesmo quando isso significa esconder coisas, omitir verdades ou criar problemas ainda maiores.

Há, porém, uma particularidade que define a personagem: Odete não consegue derramar lágrimas.

Não significa que não sinta. Pelo contrário. A série regressa várias vezes à diferença entre sentir uma emoção e conseguir exteriorizá-la, transformando o próprio ato de chorar numa das ideias centrais da narrativa.

A história ganha movimento quando uma poção de amor corre mal e Luci, a irmã mais velha de Odete, se transforma num sapo. Interpretada por Inês Sá Frias, Luci é mais cautelosa, introvertida e protetora do que a irmã e, ironicamente, também mais experiente na preparação de poções.

Ao lado das duas está Tetê, interpretada por Lúcia Moniz, mãe de Odete e Luci. Também bruxa, é uma figura calorosa e profundamente maternal, cuja relação com as filhas forma o verdadeiro centro emocional da série.

É nesta família de três mulheres que Se Eu Quiser, Choro encontra alguns dos seus momentos mais fortes. O fantástico nunca anula a intimidade das relações; apenas a torna mais visível.

À família junta-se David, interpretado por Francisco Pereira de Almeida, um recém-chegado a Serrazul, racional e aparentemente muito mais confortável com explicações simples para o mundo. A aproximação a Odete depressa o coloca num território onde essas certezas começam a falhar.

A relação entre os dois move-se entre atração, curiosidade e desconfiança. E quanto menos se souber sobre aquilo que trouxe David a Serrazul, melhor.

À volta deles, a série constrói um pequeno universo de personagens que ajudam a alimentar o mistério. Pedro Maralma interpreta Rui, ex-namorado de Odete; Rute Moreira é Rita, uma colega frontal e desconfiada que acredita que Odete esconde alguma coisa; e Sofia Cotter dá vida a Matilde, melhor amiga de Rita, uma jovem observadora que deixou de falar depois de um trauma. Marina Félix interpreta Dulce, mãe de Rui, e Pedro Laginha surge como Ricardo, uma personagem ligada ao passado e aos segredos da família.

Há ainda pequenos detalhes na construção destas personagens que funcionam quase como pistas. Odete é Carneiro, Tetê Caranguejo, Luci Escorpião e David Virgem. Os signos não explicam as personagens, mas acompanham de forma divertida os seus traços mais evidentes: impulso, emoção, desconfiança e racionalidade.

Também Serrazul tem um papel importante na identidade da série.

A vila é fictícia, mas foi construída a partir de locais reais em Alcobaça e Leiria, onde a produção decorreu durante 12 dias em novembro de 2025. A Quinta do Cidral, em Alcobaça, tornou-se a casa de Odete, Tetê e Luci; a Câmara Municipal de Alcobaça representa o exterior da escola de Serrazul; e a Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos dos Marrazes, em Leiria, foi utilizada para os interiores.

Essa utilização de espaços reais ajuda a série a manter o sobrenatural muito próximo de uma realidade reconhecível. As bruxas não vivem num mundo separado: vivem numa vila portuguesa, numa casa familiar, estudam e deslocam-se como qualquer outra pessoa.

A escolha de filmar no outono também encaixa diretamente na intenção visual do projeto. Carolina Aguiar descreveu a vontade de criar uma história que lembrasse o primeiro dia frio e chuvoso do ano, com café quente, gengibre, abóbora e um mundo de fantasia pintado pelas cores da estação.

É uma imagem muito próxima daquilo que vemos no ecrã: interiores quentes, madeira, velas, jardins húmidos e uma atmosfera que consegue ser acolhedora e inquietante ao mesmo tempo.

Se Eu Quiser, Choro também se permite mudar de género com facilidade. Há momentos de comédia absurda, romance, drama familiar, mistério e até aproximações ao terror, sem que a série perca o seu tom leve e irreverente.

Talvez o melhor exemplo seja um dos acontecimentos que faz parte da própria premissa: Odete transforma a irmã num sapo e, mais tarde, explode acidentalmente a cabeça do ex-namorado.

“Quem nunca?”, pergunta o próprio texto promocional da série.

É grotesco, absurdo e engraçado ao mesmo tempo, exatamente o território em que a série parece sentir-se mais confortável.

A partir daí, começam a surgir perguntas, suspeitas e segredos que é melhor deixar intactos para quem ainda não viu os episódios.

A série é composta por cinco episódios de cerca de 20 minutos, com argumento e realização de Carolina Aguiar. A produção é da Paris Latino, numa coprodução com a RTP e com acompanhamento da RTP LAB.

A direção de fotografia é de Miguel B. Nunes, a direção de arte de Maria Flores, a música original de João Espada e a animação 2D e o genérico são assinados por Josefina Amorim.

Há ainda um crédito particularmente adequado a uma série desta natureza: Ivan Santos, biólogo e consultor animal.

Porque, apesar de toda a magia, alguém teve de olhar pelos sapos.

No fundo, Se Eu Quiser, Choro usa tudo aquilo que parece extraordinário, bruxas, poções, maldições, sapos e acontecimentos impossíveis, para falar sobre coisas muito mais familiares.

Sobre crescer. Sobre errar. Sobre querer proteger quem amamos. Sobre pedir ajuda. Sobre perceber que sentir e conseguir demonstrar aquilo que sentimos nem sempre são a mesma coisa.

E talvez por isso, no meio de toda a magia da série, uma das coisas mais difíceis de conseguir continue a ser também uma das mais simples:

uma lágrima.

Os cinco episódios de Se Eu Quiser, Choro estão disponíveis na RTP Play.

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Ficha Técnica
Título Original
Se Eu Quiser, Choro
Autoria
Carolina Aguiar
Produção
RTP e Paris Latino
Ano
2026
Duração
5 Episódios | ~20 min.
Classificação
12AP
Sinopse
Odete (Filipa Saavedra) é uma jovem bruxa que adora ser bruxa. Vive com a mãe, Tetê (Lúcia Moniz) e a sua irmã, Luci (Inês Sá Frias). Quando uma poção de amor corre mal e transforma Luci num sapo, Odete embarca numa série de aventuras para reverter o feitiço. Pelo caminho terá de lidar com um corpo sem cabeça, segredos familiares e a chegada misteriosa de David (Francisco Pereira de Almeida), um rapaz cativante que parece saber mais do que revela.